sábado, 5 de novembro de 2011

Vinganças e remédios


 

   Como se já não fosse suficiente ter que estar ali, obrigado a ficar sentado olhando para o teto e para a janela, pensando em uma outra coisa qualquer, ele tinha que estar parado em um lugar o qual não lhe importava, mesmo sem querer, e de vez em quando olhando para os outros, fingindo talvez da sua melhor forma estar interessado, não, ele enganara a poucas pessoas em sua vida inteira, mesmo assim eram poucos demais para serem contados entre tantos a quem ele tentou contar uma mentira.
   Ele realmente tentava prestar atenção, e simplesmente, não conseguia, mesmo que estivesse pensando no assunto, se esquecia minutos depois, e sem querer já estava pensando em outra coisa.
   Havia uma coisa inquietante do lado de fora, uma sombra, várias sombras, e mesmo assim, ninguém via, não eram sombras que seguiam as pessoas, eram pessoas que seguiam sombras, estaria vendo coisas novamente? Mas, há anos que ele não vê nada desse tipo, estaria voltando então a mais um de seus períodos de alucinações? Remédios, afogariam-no de remédios novamente, como fizeram nos últimos sete anos.
   Uma sombra perdida de um ser qualquer se manifestou na sala agora vazia, atravessando as paredes, o chão, as janelas, a porta, o teto, até que toda a sala ficou repleta de escuridão e sombras avulsas. Elas não o deixariam sair novamente, elas nunca deixavam, elas nunca o deixavam em paz, e mesmo ele não sabia do sigilo que elas guardavam em relação às observações que sempre fizeram dele.
   Silêncio.
   Numa sala vazia, de sombras, ar abafado, e o chiado que elas sempre fazem, e que todos dizem ser o som do silêncio.